Por que as pessoas se preocupam com a inflação? Quais são os efeitos económicos da inflação?

Pontos Principais

  • Inflação inesperada tende a prejudicar aquelas pessoas cujo dinheiro recebido—salários e pagamentos de juros—não aumenta com a inflação.
  • A inflação pode ajudar àqueles que devem dinheiro que pode ser pago de volta com reais menos valiosos e inflacionados.
  • Baixos índices de inflação têm relativamente pouco impacto econômico no curto prazo. No médio e longo prazos, entretanto, mesmo índices baixos de inflação podem complicar planejamento futuro.
  • Altas taxas de inflação podem confundir os sinais de preço no curto prazo e impedir que as forças de mercado operem eficientemente.

A confusão sobre a inflação

Muitos economistas se opõem à inflação alta, mas eles tendem a se opor com menos fervor do que muitos não-economistas.
Robert Shiller, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Economia em 2013, conduziu várias pesquisas durante os anos 90 sobre o comportamento em relação à inflação. Uma de suas perguntas era “Você concorda que prevenir a inflação alta é uma importante prioridade nacional, tão importante quanto prevenir o abuso de drogas ou a deterioração da qualidade de nossas escolas?” As respostas foram dadas em uma escala de um a cinco, em que um significava "concordo plenamente" e cinco significava "discordo completamente”.
De toda a população dos Estados Unidos, 52% responderam “concordo plenamente” que prevenir a inflação alta é uma importante prioridade nacional e apenas 4% responderam “discordo completamente”. Entretanto, entre profissionais de economia, apenas 18% responderam “concordo plenamente;” outros 18% responderam “discordo completamente”.

A terra do dinheiro de mentira

Quais são os problemas econômicos causados pela inflação e por que os economistas geralmente os consideram com menos preocupação do que o público em geral? Vamos começar com uma pequena história: A Terra do Dinheiro de Mentira.
Em uma manhã, todo mundo na Terra do Dinheiro de Mentira descobriu ao acordar que o valor monetário de todas as coisas havia aumentado em 20%. A mudança foi totalmente inesperada. Todos os preços, em todas as lojas, estavam 20% mais altos. Os salários estavam 20% maiores. As taxas de juros estavam 20% mais altas. A quantidade de dinheiro—em todos os lugares, de carteiras a poupanças—estava 20% maior. A inflação da noite pro dia foi manchete em todos os jornais em todos os lugares da Terra do Dinheiro de Mentira. Mas as manchetes rapidamente desapareceram quando as pessoas perceberam que, em termos do que elas realmente podiam comprar com seus rendimentos, essa inflação não teve nenhum impacto econômico. Os salários de todos ainda podiam comprar exatamente o mesmo conjunto de produtos que antes. As poupanças de todos ainda eram suficientes para comprar exatamente o mesmo carro, férias ou aposentadoria que eles poderiam ter comprado antes. Níveis iguais de inflação em todos os salários e preços acabaram não tendo importância alguma.
Quando as pessoas no questionário de Robert Shiller explicaram suas preocupações sobre a inflação, uma razão típica para essas preocupações era que as pessoas temiam que, à medida que os preços aumentassem, elas não seriam capazes de comprar as mesmas coisas. Em outras palavras, as pessoas se preocupavam porque elas não viviam em um lugar como a Terra do Dinheiro de Mentira, onde todos os preços e salários aumentam simultaneamente. Ao invés disso, as pessoas vivem aqui na Terra, onde os preços podem subir enquanto os salários não aumentam nada ou onde os salários aumentam mais lentamente do que os preços.
Os economistas observam que, na maioria dos períodos, o nível de inflação dos preços é aproximadamente parecido com o nível de inflação dos salários, então eles argumentam que, na média ao longo do tempo, o status econômico dos indivíduos não é muito afetado pela inflação. Se todos os preços, salários e taxas de juros são automaticamente e imediatamente ajustados pela inflação, como na Terra do Dinheiro de Mentira, então o poder de compra, lucros ou pagamentos reais de empréstimos de ninguém mudaria. Entretanto, se outras variáveis econômicas não se moverem exatamente em sincronia com a inflação, ou se os reajustes pela inflação ocorrerem apenas após um intervalo de tempo, então a inflação pode causar três tipos de problemas: redistribuição involuntária do poder aquisitivo, sinais de preços obscuros e dificuldades no planejamento de longo prazo.

Redistribuição involuntária do poder aquisitivo

A inflação pode causar redistribuições de poder aquisitivo que prejudicarão alguns e beneficiarão outros. Indivíduos que são prejudicados pela inflação incluem aqueles que detém grandes quantias de dinheiro, seja em cofres, seja numa caixa debaixo da cama. Quando há inflação, o poder de compra do dinheiro diminui. Mas dinheiro é apenas um exemplo de um problema maior: qualquer um que tenha ativos financeiros investidos de forma que o retorno nominal não caminhe junto com a inflação tenderá a sofrer com a ela. Por exemplo, se uma pessoa tem dinheiro numa conta no banco que paga 4% de juros e a inflação aumenta para 5%, então a taxa real de retorno para o dinheiro investido naquele banco é negativa em 1%.
O problema de uma taxa de juros nominal interessante ser transformada em uma taxa de juros real não tão interessante pode ser piorado pelos impostos. O imposto de renda nos EUA é cobrado sobre os juros nominais recebidos em termos de dólares, sem ajuste pela inflação. Portanto, um indivíduo que investe $10.000 e recebe uma taxa de juros nominal de 5% é taxado nos $500 recebidos—não importando se a taxa de inflação é 0%, 5% ou 10%. Se a inflação for 0%, então a taxa de juros real será 5% e todo os $500 serão um ganho no poder de compra. Mas se a inflação for 5%, então a taxa de juros real será zero e o indivíduo não terá qualquer ganho real—mas o imposto de renda sobre o ganho nominal será devido de qualquer maneira. Se a inflação for 10%, então a taxa de juros real será 5% negativa e o indivíduo estará, na verdade, perdendo poder de compra. Mesmo assim, ele ainda deverá imposto sobre o ganho nominal de $500.
A inflação também pode causar redistribuição involuntária para assalariados. Os salários geralmente aumentam com a inflação ao longo do tempo, eventualmente. Entretanto, os aumentos de salários podem ficar defasados em relação à inflação por um ou dois anos já que reajustes salariais são frequentemente mais rígidos e ocorrem apenas uma ou duas vezes por ano. Além disso, a medida que os salários acompanham a inflação cria certa insegurança para os trabalhadores e pode envolver conflitos dolorosos e prolongados entre empregadores e empregados. Se o salário mínimo for ajustado pela inflação apenas esporadicamente, os trabalhadores que o recebem estarão perdendo poder de compra em relação aos seus salários nominais, como mostrado no gráfico abaixo.
Um grupo considerável de pessoas tem muitas vezes recebido uma grande parte de sua renda de uma forma que não aumenta ao longo do tempo—aposentados que recebem pensão de uma empresa privada. A maioria das pensões tem sido tradicionalmente definidas como um valor nominal fixo de reais por ano quando da aposentadoria. Por este motivo, as pensões são chamadas de planos de benefícios definidos. Mesmo se a inflação for baixa, a combinação da inflação e rendimento fixo pode criar um problema substancial ao longo do tempo. Um indivíduo que se aposenta com rendimento fixo aos 65 anos de idade descobrirá que perder apenas 1% a 2% de poder de compra por ano por conta da inflação soma uma perda considerável após uma ou duas décadas.
Felizmente pensões e outros planos de aposentaria com benefício definido são cada vez mais raros, substituídos pelos planos de “contribuição definida”, como o 401(k)s e o 403(b)s. Neste planos o empregador contribui com um montante fixo para a conta de aposentadoria do empregado com uma frequência regular, usualmente a cada pagamento de salário. O empregado frequentemente contribui também. O empregado aplica estes recursos em uma grande variedade de veículos de investimento. Estes planos têm impostos diferidos e são transferíveis de forma que se o indivíduo troca de emprego, seu plano 401(k) vem com ele. Desde que os investimentos gerem taxas reais de retorno, o aposentado não sofre com os custos inflacionários dos pensionistas tradicionais.
As pessoas comuns também podem, ocasionalmente, se beneficiar de redistribuições involuntárias da inflação. Pense em alguém que pega emprestado $10.000 para comprar um carro a uma taxa de juros fixa de 9%. Se a inflação for de 3% quando o empréstimo for feito, então ele deverá ser liquidado a uma taxa de juros real de 6%. Mas se a inflação aumentar para 9%, então a taxa de juros real será zero. Neste caso, o ganho do mutuário por conta da inflação é a perda do credor. Um tomador de empréstimo que paga uma taxa de juros fixa e se beneficia da inflação é apenas o outro lado de um investidor que recebe uma taxa de juros fixa e sofre com a inflação. A lição é que quando as taxas de juros são fixas, aumentos de taxas de inflação tendem a penalizar os fornecedores de capital financeiro, que acabam sendo restituídos em reais que valem menos por causa da inflação. Ao mesmo tempo, quem demanda capital financeiro fica em melhor situação pois podem liquidar seus empréstimos em reais que valem menos que o originalmente esperado.
A redistribuição involuntária de poder de compra causada por inflação também pode ter um efeito mais amplo na sociedade. A admissão generalizada das forças de mercado nos EUA se apoia na percepção de que as ações dos indivíduos têm uma conexão razoável com os resultados do mercado. Quando a inflação causa sofrimento a um aposentado que construiu uma previdência ou investiu a uma taxa de juros fixa enquanto alguém que fez um empréstimo a uma taxa de juros fixa se beneficia da inflação, é difícil acreditar que o resultado seja de alguma forma justo. Similarmente, quando proprietários se beneficiam da inflação porque o preço das suas casas aumentou enquanto os inquilinos sofrem porque devem pagar um aluguel maior, é difícil enxergar quaisquer efeitos de incentivo úteis. Uma das razões pelas quais a inflação é tão indesejada pelo público geral é o sentimento que ela traz recompensas e penalidades econômicas arbitrárias e, portanto, mais prováveis de serem percebidas como injustas — mesmo perigosas.

Sinais de preço distorcidos

Os preços são os mensageiros em uma economia de mercado: eles transmitem informações sobre as condições de demanda e oferta. A inflação distorce tais mensagens. Inflação significa que os sinais dos preços são percebidos mais vagamente, como um programa de radio recebido com muita estática. Se a estática se torna severa, é difícil dizer o que está acontecendo.
Em Israel, quando a inflação acelerou para uma taxa anual de 500% em 1985, algumas lojas pararam de colocar preços diretamente nos itens já que deveriam colocar novas etiquetas nos produtos ou prateleiras todos os dias para refletir a inflação. Ao invés disso, o comprador simplesmente pegava as mercadorias das prateleiras e se dirigia para o caixa para descobrir qual o preço naquele dia. Obviamente esta situação faz a comparação de preços e compra pela melhor oferta bastante difícil.
Quando os níveis e variações de preços se tornam incertos, empresas e indivíduos acham difícil reagir aos sinais econômicos. Em um mundo no qual a inflação está em um nível alto, mas em certa medida variando para cima e para baixo, um preço mais alto de um bem significa que a inflação subiu, que a oferta pelo bem diminuiu ou que a demanda por esse bem aumentou? Um comprador deve tomar o preço mais alto como uma dica econômica para começar a substituir por outros produtos—ou o preço dos bens substitutos subiu na mesma proporção? O vendedor deveria tomar o aumento de preço como uma razão para aumentar a produção—ou este preço maior é apenas um sinal de inflação generalizada, razão pela qual os preços de todos os insumos para a produção também estão subindo? A verdadeira história presumivelmente se tornará clara ao longo do tempo, mas no dado momento, quem pode dizer?
Uma inflação alta e variável significa que os incentivos na economia para se ajustar em resposta às mudanças de preços são fracos. Os mercados se ajustarão através dos preços e quantidades de equilíbrio de forma mais errática e lenta e muitos mercados individuais experimentarão maiores chances de excedentes e escassez.

Problemas de planejamento de longo prazo

A inflação pode dificultar o planejamento de longo prazo. Na sessão acima sobre redistribuições involuntárias, discutimos o caso de um indivíduo tentando planejar sua aposentadoria com uma pensão que é fixa em termos nominais durante um período de alta inflação. Problemas similares surgem para todos os que tentam poupar para a aposentadoria, pois eles devem considerar o que o seu dinheiro realmente poderá comprar por várias décadas no futuro, sendo que a taxa de inflação futura não pode ser conhecida com certeza.
A inflação, especialmente em níveis moderados ou altos, coloca problemas substanciais de planejamento também para empresas. Uma firma pode ganhar dinheiro com a inflação, por exemplo, quando posterga ao máximo o pagamento de contas e salários, podendo dessa forma pagar com dinheiro inflacionado, enquanto recebe suas receitas o mais rápido possível. Uma empresa também pode sofrer perdas com a inflação, como no caso de um varejista que fica preso com muito dinheiro em caixa apenas para ver o valor do dinheiro corroído pela inflação. Mas quando uma empresa usa seu tempo focando em como ter lucro com a inflação, ou pelo menos evitar sofrimento com ela, uma troca inevitável ocorre: menos tempo é gasto melhorando produtos e serviços ou descobrindo como fazer seus produtos e serviços mais baratos. Uma economia com alta inflação recompensa negócios que encontraram maneiras mais inteligentes de lucrar com a inflação, que não são necessariamente os negócios que se destacam em produtividade, inovação ou qualidade de serviços.
No curto prazo, níveis de inflação baixo ou moderado podem não representar uma dificuldade esmagadora para o planejamento de negócios, pois os custos de fazer negócios e receitas de vendas podem aumentar a taxas semelhantes. Entretanto, se a inflação variar substancialmente no curto ou médio prazos, então pode fazer sentido para as empresas manter o foco nas estratégias de curto prazo. A evidência de se as taxas relativamente baixas de inflação reduzem a produtividade é controversa entre os economistas. Há alguma evidência de que se a inflação puder ser mantida em patamares moderados abaixo de 3% ao ano, isso não precisa evitar que a economia real de um país cresça em um ritmo saudável.
Para alguns países que vivenciaram uma hiperinflação de vários milhares por cento ao ano, uma taxa anual de 20%-30% pode parecer basicamente o mesmo que zero. Entretanto, vários economistas apontaram o fato sugestivo de que quando a inflação nos EUA se acendeu no início da década de 1970 para 10%, o crescimento dos EUA em produtividade desacelerou, e quando a inflação desacelerou na década de 1980, a produtividade não demorou a voltar a crescer, como mostra o gráfico abaixo.

Alguns benefícios da inflação?

Apesar de os efeitos econômicos da inflação serem principalmente negativos, há dois pontos de contrabalanço que valem a pena ser mencionados. Primeiro, o impacto da inflação difere consideravelmente dependendo se ela vai aumentando vagarosamente de 0% a 2% ao ano, galopando de 10% a 20% ao ano, ou correndo ao ponto de hiperinflação em, digamos, 40% ao mês. A hiperinflação pode destruir uma economia e uma sociedade. Uma taxa de inflação anual de 2%, 3% ou 4%, entretanto, está muito longe de uma crise nacional. Uma baixa inflação é também melhor que deflação, o que ocorre em recessões severas.
Segundo, um argumento que às vezes é utilizado é o de que uma inflação moderada pode ajudar a economia tornando os salários no mercado de trabalho mais flexíveis. Um pouco de inflação pode mordiscar salários reais e, portanto, ajudar a reduzi-los se necessário. Neste sentido, mesmo se uma taxa moderada ou alta de inflação puder atuar como areia nas engrenagens da economia, talvez uma taxa de inflação baixa sirva como óleo para as engrenagens do mercado de trabalho. Este argumento é controverso. Uma análise mais profunda deveria considerar todos os impactos da inflação. Isso, contudo, oferece outra razão para acreditar que, considerando tudo, taxas muito baixas de inflação podem não ser especialmente prejudiciais.

Resumo

  • Inflação inesperada tende a prejudicar aquelas pessoas cujo dinheiro recebido—salários e pagamentos de juros—não aumenta com a inflação.
  • A inflação pode ajudar àqueles que devem dinheiro que pode ser pago de volta com reais menos valiosos e inflacionados.
  • Baixos índices de inflação têm relativamente pouco impacto econômico no curto prazo. No médio e longo prazos, entretanto, mesmo índices baixos de inflação podem complicar planejamento futuro.
  • Altas taxas de inflação podem confundir os sinais de preço no curto prazo e impedir que as forças de mercado operem eficientemente.

Questão de autoavaliação

Se a inflação aumentar inesperadamente em 5%, um governo que recentemente tomou emprestado dinheiro para pagar uma nova estrada seria beneficiado ou prejudicado?

Pergunta de revisão

Identifique várias partes que provavelmente serão ajudadas e várias partes que provavelmente serão prejudicadas pela inflação.

Questões de pensamento-crítico

  • Se, ao longo do tempo, os pagamentos e salários em média aumentam pelo menos tão rápido quanto a inflação, por que as pessoas se preocupam sobre como a inflação afeta os rendimentos?
  • Quem é o grande ganhador com a inflação em uma economia?
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