If you're seeing this message, it means we're having trouble loading external resources on our website.

Se você está atrás de um filtro da Web, certifique-se que os domínios *.kastatic.org e *.kasandbox.org estão desbloqueados.

Conteúdo principal

Loba capitolina

Dra. Jaclyn Neel

Símbolo Eterno de Roma?

Se alguém pudesse escolher qualquer animal para se tornar sua mãe, quantas pessoas escolheriam uma loba? Lobos não são conhecidos por serem os mais gentis dos animais, e no mundo antigo, quando muitas pessoas ganhavam a vida como pastores, os lobos podiam representar uma ameaça significativa. Mas por razões que não entendemos, os Romanos escolheram uma loba como seu símbolo. De acordo com a mitologia Romana, os gêmeos fundadores da cidade, Rômulo e Remo, foram abandonados nas margens do Rio Tibre quando eram crianças. Uma loba os salvou e os amamentou. A imagem deste milagre rapidamente se tornou um símbolo da cidade de Roma, aparecendo no sistema monetário no século III a.C. e continuou a aparecer em monumentos públicos, de latas de lixo a postes de luz, na cidade até os dias de hoje. Mas imagem mais famosa desta loba e dos gêmeos pode não ser de forma alguma antiga, ou ao menos não inteiramente.
Moeda (didramma) da série “Romano-campana”, Héracles e a loba amamentando os gêmeos, 265 a.C., moeda de prata (Museu Capitolino, Roma)
Moeda (didramma) da série “Romano-campana”, Héracles e a loba amamentando os gêmeos, 265 a.C., moeda de prata (Museu Capitolino, Roma)

Descrição

A Loba Capitolina (Lupa Capitolina em Italiano) tirou esse nome da sua localização. A estátua está situada nos Museus Capitolinos em Roma. A estátua da Loba é uma composição trabalhada inteiramente em bronze que se destina a ser vista em 360 graus. Em outras palavras, o espectador pode obter uma visão igualmente boa de todas as direções: não existe um ponte de vista "correto". A loba é retratada de pé em uma pose estática. O corpo é fora de proporção, porque o pescoço é muito longo para seu rosto e flancos. Os detalhes das incisões no pescoço mostram pelos grossos e anelados que terminam em contas artificiais ao redor do rosto e atrás das pernas dianteiras. O corpo da loba é mais elegante na frente que atrás: suas costelas são visíveis assim como os músculos das pernas dianteiras, enquanto atrás a musculatura é menos detalhada, sugerindo menos tonalidade. Sua cabeça se curva em direção ao seu rabo. As orelhas se curvam para trás. Mesmo as crianças têm uma postura mais dinâmica: uma se senta com os pés se espalhando pra ambos os lados, enquanto a outra se ajoelha ao seu lado. Ambas olham pra cima. Elas, também, são magras, sem nenhum traço de gordura de bebês.
Loba Capitolina, século V a.C. ou medieval, bronze, 75 cm (Museus Capitolinos, Roma)
Loba Capitolina, século V a.C. ou medieval, bronze, 75 cm (Museus Capitolinos, Roma)

Fundição oca em Bronze: Como era feita?

A estátua da Loba é uma fundição oca em bronze em tamanho um pouco menor que o real. A fundição oca é uma das muitas formas como as esculturas de metal eram feitas no mundo antigo. Esse era o método típico para estátuas de bronze em grande escala.
Na antiguidade, a fundição oca (também conhecida como "fundição por cera perdida") podia ser um processo demorado. Uma escultura grande era feita em várias peças menores que eram juntadas na última etapa do processo. Primeiro o escultor fazia um molde da estátua em um meio de menor valor, como o barro. Ele então cobria o molde com um outro molde, que era feito em múltiplas peças para que pudesse ser removido. Uma vez removido, o segundo molde era coberto com cera e outra camada de barro. O segundo e terceiro moldes eram então ligados um ao outro e queimados, deixando um espaço oco na medida em que a cera derretia. O metal derretido era então derramado para substituir a cera, e os moldes eram por fim removidos, somente quando o metal tivesse esfriado e se solidificado. No caso de estátuas maiores, as peças eram soldadas juntas e polidas numa etapa final.
Diagrama de um molde de fundição de cera perdida.
Mas embora a Loba seja fundida oca, ela não é feita de peças múltiplas. Isso levantou questionamentos significativos sobre a loba ser de fato antiga.

Questões de Cronologia

Mesmo se sabendo há algum tempo que os gêmeos são adições da Renascença à escultura, apenas em 2.006 a cronologia da Loba foi questionada. Por muito tempo considerada como datada da Etrúria do século V a.C. (Cultura Etrusca), a idade da Loba agora é discutida. Se antiga, é provável que a escultura original provavelmente não seria a representação da loba de Roma. Sabemos que os Romanos tinham relações comerciais que os levaram a adquirir obras de arte de áreas vizinhas, incluindo a Etruria (Plínio, o velho, História Natural 35.45).
Mas no século V a.C., Roma era ainda uma cidade relativamente pequena, e possivelmente ainda não tinha começado a usar a loba e os gêmeos como seu símbolo. Outros artefatos Etruscos (como a Lupa de Fiesole abaixo) têm um lobo solitário como parte de uma caçada ou um ritual, e é mais provável que uma obra etrusca do século V a.C. se relacionaria com a cultura Etrusca, ao invés da Romana.
Loba Capitolina, século V a.C. ou medieval, bronze, 75 cm (Museus Capitolinos, Roma)
Loba Capitolina, século V a.C. ou medieval, bronze, 75 cm (Museus Capitolinos, Roma)
Mas novas análises de laboratório sugerem que a Loba não é antiga e foi feita na Idade Média, especificamente no século XII d.C.. Questionamentos sobre autenticidade da Loba foram levantados pela primeira vez quando a estátua foi restaurada no fim dos anos 1990. Naquela época, os conservadores perceberam que a técnica de fundição usada para fazê-la não é a mesma técnica de fundição oca usada em outras esculturas de bronze em larga escala. Ao invés de usar múltiplos moldes, como descrito acima, a Loba foi feita como uma peça única. Defensores deste ponto de vista argumentam que a estátua se assemelha em estilo a bronzes medievais. Defensores da datação Etrusca da estátua afirmam que as poucas estátuas Etruscas de bronze larga escala sobreviventes são semelhantes em estilo á Loba.
A afirmação de que a Loba é medieval gerou muita controvérsia na Itália e entre estudiosos da Roma antiga. Muitos pesquisadores respeitados contestaram publicamente as novas descobertas e mantêm a proveniência Etrusca da Loba. Testes físicos e químicos do bronze foram inconclusivos sobre a datação. Os Museus Capitolinos admitem ambas as possibilidades na descrição do objeto.
Lupa de Fiesole, Séculos IV-II a.C., escultura de bronze (Museo Civico, Fiesole) (foto: Sailko)
Lupa de Fiesole, Séculos IV-II a.C., escultura de bronze (Museo Civico, Fiesole) (foto: Sailko)

Conclusão

Embora o debate sobre a datação da Loba Capitolina continue, ambas as interpretações oferecem argumentos interessantes para análise. O único testemunho conclusivo sugere que o material usado na fundição da loba veio da Sardenha e de Roma. Se a obra é do século V a.C., podemos usar esta evidência para analisar padrões de comércio na Itália. Lembrando que a loba foi originalmente fundida sem os gêmeos, não importa a data que atribuamos à estátua da loba; podemos tentar imaginar qual era o significado original da estátua.
Por outro lado, se a loba é medieval, qual era a sua função original? Não devemos pensar que uma loba medieval é menos valiosa apenas porque é mais recente em sua data de manufatura. Na verdade, uma imitação da Loba Capitolina pode ser um símbolo ainda melhor de Roma: uma adição da Renascença a uma estátua medieval, que recria o símbolo antigo da cidade eterna.
Texto do Dr. Jaclyn Neel

Recursos adicionais
M. R. Alföldi, E. Formigli, and J. Fried, Die römische Wölfin: ein antikes Monument stürzt von seinem Sockel = The Lupa Romana: an antique monument falls from her pedestal (Stuttgart: Franz Steiner Verlag, 2011).
G. Bartoloni and A. M. Carruba, La lupa capitolina: nuove prospettive di studio : incontro-dibattito in occasione della pubblicazione del volume di Anna Maria Carruba, La lupa capitolina: un bronzo medievale Sapienza, Università di Roma, Roma 28 febbraio 2008 (Rome: “L’Erma” di Bretschneider, 2008).
Andrea Carandini and R. Cappelli, Roma: Romolo, Remo e la fondazione della città (Milan: Electa, 2000).
A. M. Carruba and L. De Masi, La Lupa capitolina: un bronzo medievale (Rome: De Luca, 2006).
C. Dulière, Lupa romana: Recherches d’Iconographie et Essai d’Interprétation (Rome: Institut historique belge de Rome, 1979).
A. W. J. Holleman, “The Ogulnii Monument at Rome,” Mnemosyne 40.3/4 (1987), pp. 427-429.
C. Mazzoni, She-Wolf: The Story of a Roman Icon (Cambridge: Cambridge University Press, 2010).