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Análise histórica da arte (pintura), uma introdução básica usando "Três de Maio de 1808" de Goya

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Os historiadores da arte usam vários métodos para entender o significado de uma obra de arte no sentido histórico. O que a obra de arte significou para o artista? O que ela significou para a cultura para a qual ela foi feita originalmente? E como esse significado mudou até o momento atual? Uma das primeiras coisas que você pode fazer quando analisa uma obra de arte é começar por descrevê-la. Normalmente passamos rapidamente por uma obra de arte, mas se você parar e questionar o que os historiadores da arte chamam de propriedades formais, você pode aprender muito. As propriedades formais se referem apenas ao objeto em si e a análise formal é baseada no simples ato de olhar atentamente. Outra coisa na qual se pode pensar é o conteúdo subjetivo da obra de arte. Ela está contando uma história da mitologia, da história, da Bíblia? Quando chegamos na arte moderna às vezes isso é um pouco mais difícil, porque algumas vezes não há uma história evidente. E a última e talvez até a forma mais importante que os historiadores da arte tentam entender uma obra de arte é pensar no contexto na qual aquela obra estava originalmente inserida. Como era o mundo quando esta obra de arte foi feita? Do que ela foi feita? Quem pediu para que ela fosse feita? O que estava acontecendo na política, economia e sociedade naquele momento? Vamos começar com a obra de Goya O Terceiro de Maio, 1808. Quando eu me aproximo de uma pintura muitas vezes a primeira coisa que eu faço é entender a pintura do ponto de vista formal. Que decisões o artista tomou? Bom, o artista decidiu fazer uma pintura grande. Isto diz um pouco da ambição do artista para a obra de arte e é importante notar que esta é uma pintura a óleo sobre tela. Obras de arte importantes foram feitas em óleo sobre tela. Esta não é uma aquarela, não é um desenho. A próxima coisa que eu percebo é o contraste extremo entre a luz e a escuridão e a forma que o artista quase dividiu a tela nestas zonas de luz e sombra. Então escala, material e valor, que é o uso da luz e sombra, todas são qualidades formais. A composição também é. Pense nela como a direção de uma peça de teatro. Onde o artista colocou os atores? Qual é a sua relação com a paisagem? Qual a relação entre eles? Para onde o artista quer que eu olhe? O que está chamando a minha atenção? Claramente nesta pintura é para o homem vestido de branco, com suas mãos para cima. Goya deixa bem claro que estamos olhando para aquele homem que será morto, para quem as armas estão apontando. Mas a composição também reforça que, como o artista colocou o homem encostado no morro, ele está aprisionado. Nossos olhos são levados para os atiradores, pelo horizonte do morro e então nosso olhar volta para a esquerda, para aquela camisa branca brilhante. Os atiradores formam uma linha diagonal para trás, criando uma ilusão de profundidade. Quando falamos sobre pinturas, estamos olhando para obras de arte planas. E uma das questões chave que podemos perguntar é se o artista está criando uma ilusão de espaço naquela superfície plana. Uma das maneiras que Goya faz isso é usar essa linha diagonal que parece recuar no espaço. Ele também reforça a profundidade de várias outras maneiras. Ele faz isso com luz. Os elementos mais brilhantes estão na frente, as coisas começam a ficar obscuras conforme vamos para trás. O nível de detalhe diminui quando vamos para longe. E finalmente, o artista também usa escala. então os prédios ao fundo são pequenos em comparação com os homens em primeiro plano. Mas ele também usa luz e sombra, semelhante ao chiaroscuro, para criar a sensação de que as formas, as pessoas neste caso, também são tridimensionais. É possível ver isso bem claramente na mão direita do homem. Lá é possível ver a qualidade da representação da pele no polegar onde existe um destaque em branco e é possível ver a sombra que é usada para traçar os contornos daquele dedo. Tem a curvatura e o volume, todos esses são elementos formais. E se quisermos permanecer neste tópico de criar uma ilusão no espaço o artista também pode usar o escorço, que é criar uma ilusão de que as formas estão vindo na nossa direção ou recuando para dentro da pintura. Um grande exemplo disso é o corpo em primeiro plano, que caiu em nossa direção depois de atingido. Seus braços estendidos e podemos ver seu corpo entrando no quadro. O artista distorceu o corpo, diminuiu seu tamanho, mas o vemos como correto pela ilusão de profundidade que o artista criou. Vemos que Goya usa vários tons terrosos, marrons, dourados, e é noite. Você falou sobre o contraste radical entre luz e sombra e o fato dele usar poucas cores ajuda a reforçar isso. Outra coisa importante pra se pensar é a forma que ele usa o pincel. Podemos ver a mão do artista colocando a tinta na tela, por ser pintura a óleo. A energia da pincelada pode ativar a superfície da tela e dar uma sensação de poder e movimento. Por exemplo, se olharmos para a camisa branca, as pinceladas não são cuidadosas. Parecem incompletas, rápidas e dão a sensação que o homem acabou de levantar os braços, que a camisa ainda está se movimentando. Olhe para as feições do homem. Suas sobrancelhas estão muito erguidas, mas como a pincelada é solta a gente releva. É como se fosse um gesto. Esta é outra decisão do artista. As formas simplificadas do rosto, do pescoço e do cabelo. O artista não perdeu muito tempo caprichando nessa parte para torná-la perfeita. E há uma qualidade diferente que resulta desse tipo de sensação de espontaneidade. Para mim as pinceladas visíveis me fazem sentir a presença do artista na frente da tela. Há um imediatismo, ao contrário de um artista que criasse uma linha perfeita que poderíamos ver na tradição neoclássica, onde as imagens parecem esculturais e eternas. Este é um momento em especial e é apropriado para esta data em particular, o 3 de maio de 1808. Temos um homem que está para ser fuzilado, figuras no chão a sua frente que acabaram se ser mortas. E outra pessoa com as mãos na cabeça, que será o próximo a ser morto. Goya pegou um objeto plano estático, esta pintura a óleo, e sugeriu profundidade e a passagem do tempo. Podemos notar também que a figura de branco e muitas das outras pessoas, podemos ver seus rostos. Eles são humanos, temos empatia por eles. Enquanto que os soldados estão alinhados com suas costas voltadas para nós. Temos a impressão de um esquadrão de fuzilamento mecânico, confrontando essas figuras profundamente humanas. Agora vamos falar do assunto, do conteúdo da pintura. É difícil separar totalmente as coisas, porque enquanto falamos dos elementos formais, podemos ver as pessoas que são vítimas e as que cometem a violência. Sobre o que é a pintura? A narrativa e o que está sendo transmitido sobre o que está acontecendo. O assunto da obra pode estar muito ligado ao contexto histórico e este é um exemplo perfeito. Napoleão Bonaparte está no trono na França e está afirmando seu poder pela Europa, incluindo a Espanha. Napoleão, através de maquinações complexas consegue invadir a Espanha e depor o rei da Espanha, Carlos IV, e é finalmente capaz de fazer com que seu irmão seja o rei da Espanha. Mas a população da Espanha não aceita isso passivamente. Há um levante popular contra a ocupação francesa da Espanha. E o levante foi no dia anterior 2 de Maio, 1808, e como vingança os franceses capturaram várias pessoas inocentes da cidade de Madrid, os levaram para fora da cidade e os executaram. E é isso que esta pintura retrata. Um grupo de espanhóis inocentes sendo brutalmente assassinados pelo exército de Napoleão. Goya nos deu um inocente com seus braços erguidos em uma posição que lembra Cristo na cruz, um mártir inocente brutalmente assassinado. Os elementos formais estão aqui para apoiar a opinião de Goya sobre este evento. Este é um dos grandes exemplos do romantismo, este momento na literatura, música e pintura, quando a expressão das emoções veio à tona, quando a pintura não era mais sobre ideias abstratas, mas sobre um tipo de resposta emocional. E uma resposta mais individual. Temos alguém sendo assassinado, sem um bom motivo. Os fatos brutais de como os humanos podem ser desumanos uns com os outros. E uma das maneiras que ele passa essa mensagem é através do simbolismo. Goya se apropriou de uma linguagem simbólica histórica. Se olharmos para o homem de camisa branca, ele é um mártir, um mártir pela Espanha. Ele está com os braços erguidos como se ele tivesse sido crucificado. E se olharmos de perto, podemos ver pequenas marcas em suas mãos que são uma referência aos buracos que Cristo recebeu na cruz, conhecidas como estigmatas. Goya usa essa tradição histórica na pintura para representar esse evento moderno. E pintando este evento de seu ponto de vista subjetivo moderno. Esta não é a mensagem do estado ou do Papa ou de uma pessoa em posição de poder. Este é o ponto de vista de Goya. E ele remete ao ambiente econômico dentro do qual esta pintura foi feita. Esta não foi uma pintura encomendada por alguém, mas esta foi uma pintura que Goya achou importante pintar e ele a pintou. Ela é claramente sobre os horrores e brutalidades da guerra. A pintura e nosso entendimento sobre ela ficam muito mais ricos por entendermos seu contexto histórico original, e o significado que ela teve para o artista e para seu mundo no início do século 19.