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Olá, seja bem-vindo ao maravilhoso mundo dos fungi, você pode dizer "fungi" ou "fungui", tanto faz, mas eu pronuncio "fungui" porque vem de "fungo" não de "funjo". Apesar que seria legal falar "funjo". Fungi são meio como plantas, e mais parecidos com os animais do que você imagina. Eles divergiram dos protistas há cerca de um bilhão de anos, e hoje os cientistas estimam haver cerca de um milhão e meio de espécies de fungos na Terra. Mas numa óptica taxonômica, conhecemos apenas cerca de 100 mil delas. E estas que conhecemos são maravilhosas, estranhas e, em alguns casos, mortais. Na verdade, a morte é o que melhor descreve os fungos. Claro, temos os fungos divertidos, como o ser unicelular saccharomyces, também conhecido como levedura. Sem eles não teríamos cerveja ou vinho ou pão. Os fungos são também responsáveis por várias doenças, desde frieiras até a potencialmente mortal histoplasmose, conhecida como pulmão de espeleologista, causada por um fungo encontrado em fezes de aves e morcegos. Fungos também podem deixar pessoas malucas, quando o fungo Claviceps purpurea crece em grãos usados para cerveja e pão, causando gangrena, espasmos nervosos, sensação de queimação, alucinações e insanidade temporária. Um componente deste fungo, ácido lisérgico, é a matéria-prima do LSD. Finalmente, temos a destruição que os fungos causam a outros animais. Mais de seis milhões de morcegos morreram na América do Norte desde 2007 devido a um fungo que causa a chamada síndrome do nariz branco. E um fungo tem causado a extinção de vários anfíbios, e ameaça muito mais, talvez um terço de todos os anfíbios na Terra. Mas não é isso que quis dizer quando relacionei fungos com morte. Enquanto alguns membros do reino fungi são completos vagabundos, todos eles juntos realizam talvez a mais vital função na cadeia alimentar global. Eles se alimentam dos resíduos mortos de quase todos os organismos no planeta. Fazendo isso, eles convertem a matéria orgânica, do que todos nós somos feitos, de volta ao solo, e com ela surge vida nova. Portanto os fungos prosperam com a morte e neste processo possibilitam a vida. (música) Fungi, os quatro reinos. Arrá! Você não me esperava em uma cadeira tão cedo, mas antes de aprofundarmos no reino fungi, quero brindar Louis Pasteur na forma de uma Biolo-grafia. (música) No tempo de Pasteur, as cervejas já eram feitas há milhares de anos pelo mundo todo. Alguns especialistas pensam ser esta a razão para que nossos ancestrais caçadores começassem a cultivar e a formarem as primeiras civilizações. Por todos esses milênios, ninguém entendia como seu mais importante ingrediente funcionava. Até que os cervejeiros pudessem ver o que as leveduras faziam, a mágica da fermentação era essencialmente "mágica". Pasteur nunca foi um grande apreciador de cerveja, mas parte de seus deveres acadêmicos na França fizeram com que ele ajudasse a solucionar problemas na indústria de álcool local. E como parte deste trabalho, em 1857, ele começou a estudar levedura em um microscópio, e descobriu que eles eram, de fato, organismos vivos. Em uma série de experimentos com as recém-encontradas criaturas, ele encontrou que na falta de oxigênio livre, a levedura era capaz de obter energia pela decomposição de substâncias que contêm oxigênio. Sabemos hoje que Pasteur estava observando a levedura em um processo de respiração anaeróbica, ou seja, fermentação. Quebrando o açúcar dos grãos, como a cevada, e convertendo eles em álcool, dióxido de carbono, e em toda a variedade de sabores associados à cerveja. No processo, Pasteur descobriu também que a cerveja ficava contaminada com outras bactérias e fungos. Ele descobriu que o crescimento destes micróbios destruidores da cerveja poderia ser eliminado por até 90 dias se a cerveja fosse mantida entre 55 e 60 graus Celsius por um curto período. Hoje, chamamos este processo de aquecimento de pasteurização, e ele é usado em tudo, de leite a comida enlatada, xaropes e vinhos. A lição que devemos guardar aqui é que Pasteur descobriu que a levedura decompõe açúcares para obter energia. Acontece que a maioria dos fungos gastam a maior parte de seu tempo decompondo todo tipo de matéria orgânica. Normalmente a matéria está morta quando os fungos a consomem, mas nem sempre. Quando uma árvore ou uma pessoa, ou um animal morrem, os fungos entram em cena e começam o trabalho de decomposição. O mesmo acontece com a laranja esquecida no fundo da fruteira. Não fosse por essa função dos fungos, plantas e animais que se alimentam deles não existiriam, porque os elementos que consomem do solo não voltariam mais. Graças à decomposição realizada pelos fungos, os nutrientes são reciclados, para a felicidade de plantas, animais, assim como outros fungos. Isso aponta para uma das principais características comum aos fungos. Da levedura, unicelular, aos gigantes cogumelos multicelulares, os fungos, como nós, são heterótrofos, mas ao invés de comer eles absorvem nutrientes de suas redondezas. Eles fazem isso secretando enzimas poderosas, que quebram moléculas complexas em pequenos compostos orgânicos, que eles usam para se alimentar, crescer e reproduzir. Grande parte dos fungos multicelulares contém redes de filamentos tubulares chamada de hifa, que crescem por dentro daquilo que serve de alimento para eles. Diferente das paredes celulares de celulose das plantas as paredes celulares dos fungos são reforçadas por um polissacarídeo, quitina, o mesmo material do exoesqueleto de insetos, aranhas e outros artrópodes. A massa emaranhada de hifa que cresce na fonte de comida é chamada de micélio. É estruturada de modo a maximizar a área de contato, o que já vimos em plantas e animais ser a regra do jogo quando se trata da absorção de algo. Micélios são tão densos que um centímetro cúbico de solo rico, pode conter hifa suficiente para ser esticada por um quilômetro. Enquanto a hifa secreta as enzimas digestivas, os fungos usam a comida para realizar a síntese de mais proteínas, e a hifa continua a crescer, permitindo que o fundo conquiste mais território e cresça ainda mais. Como resultado disso, os fungos podem ser insanamente grandes, bater recordes. Um único cogumelo Armillaria, nas montanhas azuis de Oregon (EUA), é estimado ocupar em torno de 2386 acres. Pela área é o maior organismo do planeta. Há muitas formas de classificação dos fungos, mas provavelmente a mais fácil e útil seja organizá-los pela forma como interagem com outros organismos. Os decompositores são os que consomem coisas mortas, os mutualistas formam relações benéficas com outros organismos, principalmente plantas, e finalmente temos os predadores e parasitas. Fundos decompositores secretam enzimas que quebram e absorvem nutrientes de matéria orgânica morta, como as árvores que ninguém ouviu cair na floresta. De fato, a habilidade dos fungos de quebrar a lignina, que é o que torna a madeira dura, quebrando em glicose e outros açúcares simples, é crucial para o ciclo da vida. Eles são praticamente os únicos organismos que podem fazê-lo. Eles podem ainda decompor proteínas em aminoácidos. Basicamente todos os pedacinhos pretos na terra do seu quintal são fragmentos de antigas plantas digeridas pelos fungos. Os fungos mutualistas são um grupo menor. Muitos tem uma hifa especializada chamada haustório, que emaranham com as raízes de plantas para o benefício de ambos. Eles ajudam as plantas a absorver nutrientes, em especial fosfatos, realizando quebras de forma mais eficiente que a raiz realiza. Em troca, os fungos colocam sua hifa no tecido da raiz da planta, e, como uma taxa de agenciamento, cobra na forma de açúcares ricos em energia. Estas relações mútuas são conhecidas como micorriza, do grego mikos, ou fungo, e rhiza, raiz. Micorrizas são de enorme importância na natureza e na agricultura. Quase todas as plantas vasculares, na verdade, tem fungos em sua raiz, e confiam a eles a produção de nutrientes essenciais. Produtores de cevada, o ingrediente principal da cerveja, inoculam as sementeiras com um fungo específico para ajudar no crescimento. Outros fungos não são tão amigáveis com seu hospedeiro. Os fungos predadores capturam a presa com sua hifa. O fungo Arthrobotrys encontrado no solo modifica o arco de seus filamentos para laçar nemátodos e absorver seu tecido. E temos os parasitas, fungos que se alimentam de organismos vivos, sem matá-los, pelo menos por um tempo. Veja um dos meu favoritos, a formiga zumbi, ou ophiocordyceps. Ele lança esporos em uma formiga na qual a hifa cresce pelo corpo absorvendo nutrientes de órgãos que não são essenciais. Quando o fungo vai se reproduzir, ele invade o cérebro da formiga, e faz com que ela caminhe para um lugar úmido e gelado da floresta, onde os esporos em amadurecimento emergem pela cabeça da formiga, de modo a espalhar mais esporos. Para provar que o reino Fungi tem super-heróis, em 2012 os cientistas descobriram que estes esporos zumbis são atacados por outro fungo parasita. Não se sabe muito sobre estes fungos salvadores de formigas, apenas que esterilizam muitos dos esporos zumbis por um processo parecido com castração química. Que bagunça! Esquisito! Como mencionei isso, devemos falar um pouco sobre o sexo dos fungos. Os fungos se reproduzem como dá, tanto de forma sexuada como assexuada. Algumas espécies fazem de ambas as formas. Independente da forma de reprodução, a maioria se propaga produzindo uma quantidade enorme de esporos, como vimos em plantas não-vasculares e nas plantas vasculares simples, as samambaias. Mas a reprodução sexuada dos fungos não se parece com a de nenhum outro organismo que estudamos até agora. Os conceitos de macho e fêmea não se aplicam aqui de jeito nenhum. Alguns fungos reproduzem por si só, outros reproduzem com qualquer outro indivíduo à sua volta, e outros pode só se acasalar com um membro de outro "tipo". Não são de diferente sexo, eles apenas tem mecanismos moleculares diferentes, que os tornam compatíveis ou não. Às vezes esses tipos são chamados de mais e menos, outras vezes de um e dois. De qualquer forma é considerada uma reprodução sexuada porque cada pai contribui com informação genética quando eles geram seus esporos. Tudo começa com esta dança do acasalamento química. O micélio de um dos fungos envia feromônios que são capturados e se ligam a receptores em um par interessado e disponível. Esta ligação obriga o micélio a enviar sua hifa em direção ao outro par. Quando eles se encontram, eles fundem o citoplasma de suas células, no estágio de reprodução chamado de plasmogamia. Muitas vezes em horas, ou séculos, mais tarde, sim, pode levar de fato centenas de anos para os fungos fazerem sexo, a união resulta na produção de esporos que cada um deles é capaz de dispersar. Certo tipos de fungos, como o Morchella esculenta produzem esporos em ascos em forma de sacos que contém os esporos, conhecidos como ascocarpos. Esta é a parte que você pega quando está vagando pela floresta. Alguns fungos lançam seus esporos ao vento outros esporos flutuam na água. Esporos mais empreendedores pegam carona em criaturas que estão passando, esperando cair em algum lugar onde haja muitos nutrientes para absorver, de modo que possam crescer e enviar seus feromônios quando estiver em tempo, deixando sua hifa dançar o tango. Finalmente, para alguns fungos a reprodução sexuada simplesmente não é para eles. Eles então fazem com si mesmos. Alguns crescem estruturas filamentosas que produzem os esporos por mitose. Essas estruturas são visíveis e são chamadas de mofo. Esta coisa na laranja no fundo da fruteira ou na ponta de um pedaço de pão, aquele que você deixou para um colega de quarto, que deixou para outro colega que pensou que você iria comer. Na levedura, que é unicelular, a reprodução assexuada ocorre pela antiga divisão celular, ou pela formação de brotos que são separados em diferentes organismos. Algumas espécies de levedura, como a amiga dos cervejeiros Saccharomyces cerevisiae, convertem açúcar em álcool, de modo que os cervejeiros criam condições que estimulam a alta produção de levedura dando a ela muito açúcar e oxigênio, pois mais levedura significa mais álcool. Sim, fungos. Eles se esbaldam com a morte, podem nos deixar insanos, transformam formigas em zumbis da noite, mas por causa de seu trabalho duro, de forma estranha, eles tornam possíveis coisas como a agricultura e a cerveja, Legendado por: Eduardo Pavinato Olimpio e todas as outras coisas pelas quais vale a pena viver.