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Como museus moldam significados

A cultura pode ser definida como as práticas sociais [ou os discursos], cujo principal objetivo é a significação, isto é, a produção de sentido ou a busca de "sentido"  para o mundo em que vivemos. Cultura é o nível social no qual são produzidas as imagens do mundo e as definições da realidade que podem ser ideologicamente mobilizadas para legitimar a ordem existente nas relações de dominação e subordinação entre classes, raças e sexos. —Griselda Pollock, Vision and Difference: Feminism, Femininity and Histories of Art, Nova York: Routledge, Chapman & Hall, Inc., 1988, p. 20
James Tissot, London Visitors (Os visitantes de Londres), 1874, óleo sobre tela, 160 x 144 cm (Museu de Arte de Toledo)
Uma premissa central de criticismo pós-moderno é a de que somos construídos com base nos códigos, discursos e linguagens do nosso contexto cultural. Esses códigos não parecem ser artificiais para nós — ao invés, parecem naturais. Mas isso é um efeito do poder da cultura em definir a nós e ao modo como olhamos para o mundo. A cultura "naturaliza" códigos de identidade, e nós esquecemos de que o modo como nos definimos — e aos outros — dependendo das escolhas que fazemos. Imaginamos, ao contrário, que as coisas "sempre foram dessa maneira". O criticismo pós-moderno da arte oferece um meio para desafiar essa ideia, mostrando como as representações visuais (isto é, culturais) de raça, classe, gênero e sexo são criadas e como elas mudam e como moldam a identidade.

A ascensão do museu

Instituições culturais são parte integrante da criação da identidade. O final dos século XVIII e o início do século XIX viram a ascensão de uma importante nova instituição na cultura europeia: o museu de arte público. Museus na Inglaterra (o Museu Britânico e a National Gallery of Art), França (Louvre), Alemanha, Itália e, por fim, nos Estados Unidos desempenharam um papel importante na definição da identidade nacional. Carol Duncan, na seguinte citação de seu livro Civilizing Rituals (Rituais Civilizadores), defende fortemente o importante papel que esses museus tiveram:
Controlar um museu significa precisamente controlar a representação de uma comunidade e seus mais altos valores e verdades. É também o poder de definir a posição relativa dos indivíduos dentro de uma comunidade. Aqueles que são melhor preparados para realizar seu ritual—que são mais capazes de responder às suas várias sugestões—são também aqueles cujas identidades (social, sexual, racial etc.) o ritual do museu confirma de maneira mais completa. É precisamente por esse motivo que os museus e as práticas dos museus podem se tornar objetos de luta feroz e de debate apaixonado. O que nós vemos e o que não vemos nos museus de arte— e em que termos e pela autoridade de quem nós vemos isso ou não—são questões estreitamente ligadas a perguntas mais amplas sobre quem constitui a comunidade e quem define sua identidade [pp. 8-9].
William Wilkins, The National Gallery, 1832-38, Trafalgar Square em Londres (foto: Wayland Smith CC BY-SA 2.0)
James Tissot, detalhe London Visitors (Os visitantes de Londres), 1874, óleo sobre tela, 160 x 114 cm (Museu de Arte de Toledo)
Para assimilar o papel que o museu de arte desempenha na formação da ideologia, considere uma pintura de James-Jacques-Joseph Tissot de 1874, intitulada London Visitors (Os visitantes de Londres). Implícitas nesta imagem estão as funções social e cultural do museu de arte na Inglaterra do final do século XIX. O crítico britânico do século XIX William Hazlitt articula o principal objetivo da National Gallery em termos que ressoam incrivelmente com a pintura de Tissot:
É uma cura (para a época pelo menos) para paixões inquietas. Somos abstraídos para outra esfera: respiramos ar empíreo; entramos nas mentes de Rafael, Ticiano, de Poussin, e de Caracci, e olhamos a natureza através de seus olhos; vivemos no passado, e parecemos nos identificar com as formas permanentes das coisas. Os negócios do mundo em geral, e até seus prazeres, aparecem como uma vaidade e uma impertinência. O que significa o tumulto, a mudança de cenário, as personagens de Fantoccini, a loucura, as modas ociosas, quando comparadas com a solidão, o silêncio, as aparências falantes, as formas que não somem de dentro? Aqui está a verdadeira casa da mente. A contemplação da verdade e da beleza é o objeto correto para o qual fomos criados, o que traz à tona os desejos mais intensos da alma, e dos quais nunca se cansa [como citado por Carol Duncan em Civilizing Rituals: Inside Public Art Museums (Rituais Civilizadores: Dentro dos museus públicos de arte), Londres, 1995, p. 15].
James Gibbs, St. Martin-in-the-Fields, 1722-24, Londres, fotografia: ChrisO CC BY-SA 3.0
A pintura de Tissot tem a aparência de uma rápida olhada aleatória e neutra do mundo. A autenticidade desta visão é enfatizada pelo fato de que podemos identificar o ponto real retratado na pintura.
As pessoas estão de pé no pórtico Renascimento Grego da Galeria Nacional da Arte em Londres. Através das colunas podemos observar a igreja de São Martinho dos Campos desenhada por James Gibbs  no início do século 18 e inspirada por Christopher Wren.

O museu e sua arquitetura

Ambas as fachadas da igreja e da Galeria Nacional estão diretamente ligadas à tradição da arquitetura clássica, herdadas da arte grega e romana. A fachada do Panteão, construído pelo imperador Adriano no começo do século II, exemplifica esta fachada tradicional de templo.
Panteão, 126 d.C., Roma (foto: Jean-Pol GRANDMONT CC BY 3.0)
Pense na sua própria experiência com fachadas como essa. Onde vocês as encontra? Como se sente ao vê-las? Quais as funções delas?
E. H. Baily, William Railton e Sir Edwin Landseer, Nelson ' s coluna, 1840-43, Trafalgar Square, Londres (foto: Eluveitie CC BY-SA 3.0)
À direita da pintura seria Trafalgar Square, no centro da qual há um monumento dedicado a Lord Nelson, um almirante da Marinha britânica que foi morto durante sua vitória na batalha de Trafalgar. O monumento de Nelson é formado por uma estátua de Lord Nelson, no topo de uma coluna derivada da arquitetura grega e romana. A forma deste monumento está diretamente ligada a uma forma de monumento triunfal que pode ser rastreada até a arte romana, melhor exemplificada pela coluna de Trajano, construído no início do século II em Roma.
É importante ver um espaço público, como Trafalgar Square, e compará-lo com a tradição de espaços do mesmo tipo no planejamento de cidades. Por exemplo, a coluna de Trajano em Roma era parte de um complexo maior, o fórum de Trajano. Era tradicional no planejamento da cidade romana ter, no centro, um grande espaço público, dentro do qual eram colocados os prédios públicos formais. Esses fóruns na cidade romana, serviam para dar forma visual aos valores dominantes de Roma, e à autoridade do estado.
Vale a pena identificar os diferentes monumentos incluídos do Fórum de Trajano. Para entrar no fórum, o indivíduo passaria por um arco triunfal, dedicado a Trajano. Então ele estaria no grande pátio, com uma estátua equestre de Trajano, no centro. Este pátio termina em um grande edifício, chamado a Basílica Ulpia. Uma das suas principais funções seria a de tribunal de direito. Além da Basílica, havia duas bibliotecas — uma grega e outra latina. Essas bibliotecas estão ao lado da coluna de Trajano. O complexo termina no Templo do Divino Trajano, dedicado pelo seu sucessor.
Observe as diferentes instituições inclusas no fórum e considere sua relação simbólica com a autoridade do imperador Trajano e o Império Romano. Compare isto com a praça de Trafalgar (Trafalgar Square). Também considere outros grandes espaços públicos das nossas cidades. Considere os paralelos com o Parque Nacional em Washington, D.C. Lembre-se de que a Galeria Nacional de Arte é uma parte do parque. Considere as implicações desse tipo de planejamento na arquitetura ocidental. Como uma tangente aqui, considere as implicações da ideia de "Império." Lembre-se: central ao conceito romano de poder, está sua noção de império. Lembre-se também de que Tissot fez suas pinturas no auge do império britânico.
Vista aérea do Parque Nacional (National Mall) em Washington, D.C. mostrando o Memorial de Lincoln na parte inferior, o monumento de Washington no centro, e o Capitólio dos Estados Unidos no topo
Obviamente uma das instituições presentes na pintura é o Museu de arte e o papel que a arte desempenha na vida social, cultural e política no Ocidente. Relacione a sua experiência de ver esta pintura a sua própria experiência de ir a um museu de arte. Quais generalizações você pode fazer sobre as localizações dos museus de arte? Quais relações você percebe entre o museu de arte e as construções e/ou os espaços arredores? Quais sãos os propósitos de uma entrada formal, como a mostrada na pintura? O que você espera ver ou não ver em um museu de arte?
Ensaio por Dr. Allen Farber

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